Um Post que tive oportunidade de Publicar no MI, mas que infelizmente, 2 meses depois, mantêm toda a actualidade...a ausência de qualquer informação sustentada relativamente aos impactes económicos e sociais destes investimentos específicos.
(Des)Investimentos Públicos
Muita tinta se tem investido na explanação do óbvio. Que a OTA e o TGV são projectos polémicos, pelo volume de investimento necessário (5 Mil Milhões de Euros para a OTA), pela inexistente sustentação de viabilidade económica dos mesmos, pela ausência de demonstração credível relativamente aos benefícios que estes empreendimentos poderão trazer ao país. Cair na demagogia barroca da argumentação fácil e flácida de que obras destas são necessárias para reduzir o atraso crónico em relação ao mundo, não é sequer assumir uma posição de seriedade relativamente ao país, ao seu futuro e ao desconto da geração futura.
Lanço antes um repto, para aqueles que entendem que a política não é apenas um problema de terceiros, mas também da sua própria existência cívica. Porque é este o facto que cada vez mais define o estado de espírito e material de todos os que habitam o espaço geográfico onde, por ora, vagueio. Neste ilustres desconhecidos, deposito ainda uma esperança ténue, de que partilhem o desejo de clarificar a visão turva que se abateu sobre um estado de espírito moribundo. A entropia colectiva, essa, é a pior das doenças virais que se abateu sobre Portugal.
A OTA E A TGV são um atentado vil à inteligência de qualquer cidadão que, pelo menos uma vez na sua rápida passagem pela vida, queira exercer a condição de responsabilidade que lhe assiste. Assistimos, impávidos, manipulados, a esta manobra pueril, imposta de forma gratuita e contundente a todos os que exibem a condição que os diferencia das restantes espécies animais, a inteligência.
O que torna verdadeiramente surpreendente este "embuste", (aqui sim, a correcta utilização da palavra caro e surpreendentemente silencioso Sr. Sampaio), é que apesar de todos os agentes económicos, desde as empresas transportadoras, de serviços em logística ou turismo, aos institutos que a regulamentam e aos que exibem expertise nessas matérias, todos, repito, todos estes que se encontram na também cada vez mais rara situação de independência intelectual, manifestam a sua relutância à forma leviana como estes projectos foram forjados. E não são inócuas ou parcas, as propostas para alternativas que urgem, repito, urgem serem accionadas e executadas. Sejamos claros, ninguém se insurge contra o desenvolvimento do Pais. Ninguém questiona a necessidade de meios e infra-estruturas que potenciem o tecido empresarial. O que se questiona é a falta de demonstração cabal de que estes projectos, estes, em específico, são aqueles que melhor respondem ao défice de estrutura no importante sector dos transportes. Alguém explica, por favor, aos caríssimos agentes de mudança (leia-se, ministros) as verdadeiras e profundas necessidade de uma verdadeira estrutura inter-modal de transportes para o País? Alguém lhes explica que os 3 vectores estruturantes para a logística em Portugal,
Interface(?) do Carregado, centro nevrálgico das grandes transportadoras;
Porto de Lisboa, pela sua movimentação em contentores;
Porto de Sines que “desempenha um papel essencial e reúne condições para protagonizar o papel estratégico dos portos no processo de internacionalização da economia portuguesa”
in PO Acessibilidades e Transportes - ESTRATÉGIA SECTORIAL QCA 2000-2006
estão todos situados a Sul do projecto da OTA, portanto, fora da sua esfera de influência sistémica?
Que a PSA International continua a alimentar o Terminal XXI e a acreditar que um dia este país ganhará juízo?
Que projectos desta natureza (avançar com TGV e Aeroporto) são interdependentes, sendo uma desonestidade intelectual continuar a insistir no mito do esgotamento da capacidade do aeroporto da Portela, num sistema de múltiplas variáveis?
Que em Espanha acaba de ser anunciado um plano 248,9 mil milhões de euros para transportes, num projecto crível, sustentado, interdependente, numa conjuntura mais saudável de finanças públicas…e com implementação até 2020…
Em suma, lança-se um repto ao Sr. Sampaio. Pense bem no que fez. Depois, reveja as mesmíssimas razões que o levaram a tomar a sua discutível acção passada e na inerente responsabilidade, que aqui sim, justifica observar com "redobrada atenção" um governo que detém uma maioria absoluta (que agora está a provar o que em anteriores escritos alertei - a perigosidade desta figura de maioria absoluta) e que está a ser totalmente controlado pela máquina partidária do partido de origem. Um governo cujos principais e ilustres executantes são os mesmo que entre 1995 e 2002 trucidaram o ciclo de convergência entre Portugal e a UE, os mesmos que (depois do episódio surreal de ontem esta afirmação é ainda mais verdadeira) foram responsáveis pela titânica e quase impossível tarefa de transformar Portugal no único País da União Europeia que não reduziu o seu défice estrutural, em grande parte desse período...e também o mesmo governo que deposita num ministro das finanças, elogie-se, de carácter independente (difícil e discutível condição) a difícil tarefa de conter a despesa num período de 4 anos e que o rejeita, depois de uma coabitação polémica inferior a 4 meses...
Em coerência, questiono-me se todo este circo com péssimos artistas tivesse como cicerone o Sr. Pedro, aquele Pedro que foi destituído, se V. Exª não teria uma posição, em todo, mais proactiva.
Além da esperança que deposito em tantos que se sentem ultrajados, espezinhados e que, Sr. Sampaio, não gostam de ser enganados, ainda espero que a lucidez que tantos em si identificaram quando no passado recente agiu, seja suficiente para agora responder ao repto de Portugueses tantos…
